sábado, novembro 17, 2018

SARRO



(...)

E, furtivamente, os dois se encontravam. E trocavam carícias. Pontas dos dedos se esbarrando, intencionalmente, na troca de papeis, documentos... sobre as roupas. As partes queimando e latejando.Olhos pedintes.
Como adolescentes, descobriam-se. Escondidos revelavam-se. E, mesmo famintos, poupavam o desejo, apreciando o sabor instingante do iminente flagrante.
Os beijos molhados e mordiscados nela, escorriam pelo pescoço, até os seios. Os cabelos tensionados desenhavam o contorno dos ombros, nuca e veias. 
O membro dele pressionava-se, proeminente, sob a sua orquídea coberta, suada, num movimento ritmado, lento.
A sensação juvenil, na maturidade reluzente, respeita o tempo dos sutis prazeres, em que se pode tudo, mas a escolha do depois é feita conscientemente, aguardado com a lembrança do recente agora, até novo encontro.
A taça de vinho nunca findava, nem tampouco era limpa. Ficava em seu fundo a borra, marcadamente denunciativa. O sarro da uva que perfumava o ambiente.
Aquilo sim era eternidade.

Márcia Maracajá

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