quarta-feira, fevereiro 22, 2017

RESSUSCITADA




QUISERAM ME CALAR
MAS NÃO MORRI
EU ESTAVA LÁ
EU VI

VI A MENTIRA E A VAIDADE
VI A CORRUPÇÃO, A FALSIDADE
VI A GANÂNCIA, A CRUELDADE
A INVEJA PERSONIFICADA
EU VI

E FIZERAM E REPETIRAM
MUITO PIOR
TRANSFORMARAM O LUGAR EM PRISÃO
GAIOLAS DE PÁSSAROS MUTILADOS
DE  (DES)EDUCAÇÃO ?
EU VI

E EU SOBREVIVI A TUDO ISSO

INANE
CHAGADA
DESCARTADA
A DANINHA APEDREJADA
GENI

QUISERAM TANTO
TANTO DE MIM TIRARAM
E TANTO DE MIM EU DEI
DESDOBRANDO-ME ASSIM

MORTIFICADA ENTÃO
RESSUSCITEI
SOBREVIVENDO COM O DEUS
QUE HABITA EM MIM.

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

AS ASAS QUE POUSARAM EM MIM


VOU CONTAR UMA HISTORINHA PRA VOCÊS...

Desde criança tenho uma sutil afinidade com pássaros. Os passarinhos conversam comigo, e nossa conversa muito particular me dá conta de um tanto de coisas que passam batidas e que eles vêm me lembrar.

Os passarinhos "invadem" minhas salas de aula, criam ninhos, estabelecem contato com os alunos, a gente cuida, respeita e admira de longe porque passarinho é bicho alado que não podemos aprisionar, praticando desse modo enorme pecado.

Passarinhos me acordam, bicam minhas janelas, insistem em chamar minha atenção, às vezes dançam e fazem lindos espetáculos com as acrobacias que realizam de galho em galho ou no ar.

E eles me curam e me protegem...

Anteontem, um dia atípico de férias e de trabalho, um colibri pousou na proteção de tela de minha janela, num apartamento de um edifício alto onde eu não acreditava ali pousar um beija-flor, uma ave tão pequena e delicada.

Parado, olhou pra mim, me perguntou " E então, menina?" E eu, agitada entre o telefone e o computador, tomando decisões, planejando os próximos dias,quiçá os meses do ano,  o vi, mas não pude conversar. Assim, de repente, percebi que eles voltaram a se presentificar para mim.

Todos os dias agora fazem uma algazarra na cabeceira de minha cama. Eu acordo com sonoro despertador ao raiar do dia. Trazem consigo alegria, e eu sou grata.

Ah! O que seria de mim sem os passarinhos?! Daqui, de lá, sempre que fui, voltei, nas partidas e chegadas. O que seria de mim sem suas asas e sem seus cantos, seus biquinhos lindos, os filhotes que me roubam um tempinho para tocá-los perdidos pelos cantinhos de minhas moradas?

Sempre sempre desejei libertar todos os que vejo, aves nobres ou desimportantes na hierarquia dos que nunca deveriam ter tido privado o seu voar. Mas um dia ainda faço uma revolução, tendo amanhecido a manhã com todas as portilholas escancaradas das gaiolas da vizinhança. Este será um grande dia!

domingo, dezembro 25, 2016

FALARÃO MEUS POEMAS PELAS RUAS...

* LUCILA NOGUEIRA ( 1950 -2016 )


Falarão meus poemas pelas ruas
de cor como receita de viver
e aqueles que sorriam pelas costas
recitarão meus versos sem os ler 


Falarão meus poemas pelas ruas
de cor como receita de viver
dirão que fui um mar misterioso
onde quem navegou não esqueceu 


Falarão meus poemas pelas ruas
de cor como receita de viver
dirão que era poesia e não loucura
meu jeito de sonhar todos vocês 


Falarão meus poemas pelas ruas
de cor como receita de viver
perguntarão por que vivi tão pouco
sem dar-lhes tempo de me perceber


— e aqueles que sorriam pelas costas
recitarão meus versos sem os ler


***

Lucila Nogueira ( Rio de Janeiro, 1950 - Recife, 2016) Poeta, ensaísta, contista, crítica e tradutora. Professora do curso de Letras da UFPE. Fez parte do grupo de poetas da Geração 65. Encantou-se na madrugada de hoje. 
Não a conheci pessoalmente, infelizmente. Tivemos breve contato no Facebook, numa troca poética, e sendo ela quem é, tratou-me com uma humildade imensa. Aquilo foi de uma grandeza sem tamanho.
Em suas letras conheci a mística e a força encorajadora dessa mulher.
Minha singela homenagem à Lucila Nogueira.