LEVEMENTE CRÔNICA



DO NATAL QUE SE FEZ NESTE DIA
 

EU NÃO SEI se esta minha inquietude é intrínseca dos aquarianos com ascendente em sagitário, filhos de iansã com ori de cabeça oxum...
Eu não sei se este desconforto é sintomático de um quadro prenunciado de inferno astral nem se é influência da lua cheia na noite pagã desta data cristianizada.
Sei que muitas músicas de muitos tempos evocam-me de mim soltando os meus dedos para as castonholas e os snujs e o corpo para a dança sagrada das canções preservadas nos vinis enfileirados.
Esta noite me pede vinho, lágrimas, incenso, vento vento e vento...


( relembrando a casa do quintal sagrado )

Recife, 25 de dezembro de 2015




LOGO DE MANHÃ, BOM DIA


Acompanho, atentamente, a cidade amanhecendo da cadeira do ônibus sobre o asfalto. Entram as pessoas no coletivo, como eu entrei, e entoam seu bom dia ao motorista e à cobradora, a mesma que eu, ao subir no ônibus, surpreendi sorrindo. Explico.


Carrega a senhora responsável pela cobrança tarifária um mau humor contagiante. E estando sempre ela faltando troco e na posição da empresa, agrava ainda mais o declínio do meu equilibrado estado mental. Respirei fundo ao lembrar que só trazia comigo uma nota graúda. E àquela hora da manhã, necessitada de seguir no ônibus para não atrasar minha chegada ao trabalho, assumi o risco de enfrentá-la.


Olhou para a minha nota e balançando a cabeça freneticamente, cerrou a face e disse não. Não o quê? Não tem troco. Tudo bem. Eu sento aqui pertinho de você e aguardo. Onde você vai descer? No centro da cidade. Até lá muitos passageiros teriam subido e eu receberia o troco.  E acomodei-me no assento ao lado do seu, o que a fez dar as costas para mim. 


Foi uma pequena batalha comigo mesma tentar ignorar o mau humor matutino e gratuito daquela mulher. Eu que já havia discutido com ela em outra ocasião, por causa de cinco centavos de troco que ela não tinha e que certamente se fosse eu a não ter a cobradora teria me barrado na catraca.  Como o proletariado age contra si mesmo em defesa de um patrão vil  que o deforma. Na outra viagem, o bate-boca durou alguns minutos e aconselhei-a a ter mais leveza, o dia iniciava e as pessoas não eram obrigadas a aceitar seu humor, e que trabalho está difícil para todos. Essa última frase a mim mesma soou intimidatória.  Mas, pow! Custava à mulher ser mais cordial?! 


Dessa vez EU assumi uma postura mais amena. Antes que me virasse as costas tentei um diálogo breve. Que coisa, vocês começarem o dia sem troco. O quê?! A empresa deveria dispor troco no início do expediente. Mas não arruma não! E o mínimo de troco é só pra dez reais. Eu paguei com vinte. :/  Silenciei. Retirei meu livro da bolsa e fui trocar com alguém alinhado comigo. Mas o livro me dizia justamente o contrário. Que forçasse um diálogo com quem se coloca numa posição de verdade absoluta. Que desconstruísse esse ódio que se instaura. E mais algumas páginas eu já estava convencida de que eu negligenciava a mulher. Que eu a entregava à própria sorte com sua amargura virulenta. Também me vi um pouco nela. Reconheci minha flutuação de humor no ambiente de trabalho sendo detonada por variados fatores que corrompem minha personalidade e alma. 


À medida que refletia aquele diálogo desacomodador, mais passageiros subiam no coletivo, e um a um oferecendo seu bom dia. O melhor desejo do dia. Tenham a todos um bom dia. Bom dia, irmãos, sigam na paz de Deus. Como vai, cobradora? Bom dia de trabalho. E a uma brincadeira entre os chegados ela retrucou: que violência, de manhã cedo, né?! E todos riram. Eu pasmada reconhecia a ironia daquela situação. Ela falando de violência, ela que num golpe de grosseria me agrediu gratuitamente. Percebi na postura da senhora azeda uma leveza se instaurando. Suas feições, seus gestos, tudo tudo parecia mais apaziguado. Virou-se para mim, ainda carrancuda, e me passou meu troco em silêncio, dando-me novamente as costas. E eu nada disse. 


Certa estou, andarei com a passagem separada,para facilitar a vida daquela senhora e também a minha, caso tome por descuido aquele ônibus.  Porém, é incontestável o enorme poder de  suavização do mal e de transmutação que nos provoca um bem empregado BOM DIA. 


Recife, 12 de dez de 2015.




O PRESENTE DA INGRATIDÃO



EU PERGUNTAVA A DEUS, NO PASSADO, o que significava a ingratidão recebida em minha vida.  Diversas vezes, gratuitamente me dei, me doei, sem esperar retribuição de nada, e sempre fui agraciada com presentes divinos.  Não eram caros esses presentes. Um abraço quente, numa tarde solitária. Uma palavra acalentadora, no silêncio frio. Uma companhia inesperada, para alegrar meus dias. Um olhar afetuoso, apenas.


APESAR DE TUDO ISSO, a ingratidão me incomodava profundamente. Passava por mim me perfurando a alma. Navalhando os mais puros sentimentos entregues. A mais devotada energia empenhada em defesa das pessoas amadas.  E eu carregava o que era do outro, essa tal ingratidão, comigo. E enchia a bolsa com pedras que aumentavam à medida que alguém me feria. E sangrava meus ombros por isso. Desconhecia, assim, que aquela dor não precisava ser minha.
RECENTEMENTE, o universo tem me mostrado o que significa na prática a ingratidão. E vou largando as pedras que me pesavam, deixando um rastro que delineia um caminho. Ao final, com a bolsa esvaziada, tenho uma imensidão de futuro a minha frente e uma leveza indescritível.  Em outros termos, a ingratidão é um presente. É desapego. É libertação. LIBERTA AÇÃO para o que está por vir, sem amarras que nos prendam ao que ficou para trás e que não pode a nós se ligar porque só quem é grato se conecta, num vínculo de amor genuíno, sem cobranças, sem prejuízo de macular a nossa verdade. Sem duelo de egos.
A ingratidão nos ensina a exercitar uma condição não-humana, e por isso mesmo capaz de nos elevar em nossa humanidade. Quando percebemos que somos superiores a mesquinharias, pequenezas desnecessárias e apagamentos, transitamos pela vida encontrados, autoafirmados, equilibrados conosco. O outro é um outro que precisamos respeitar, até mesmo pela sua manifesta ingratidão, e libertar seu sentimento de nós, sobretudo por isso. O que não pertence a mim e não me será salutar, é desnecessário.
PENSANDO ASSIM, até parece bom receber ingratidão. Não é presente?! É, presente, justamente, para quem assim a percebe. Para quem fica, remoendo e ressentindo o dissabor, é acúmulo de nada. Um constante vazio. Quem é libertado, parte, alça voo. Está liberado para se dar ao mundo e receber, porque esta é a lei da vida. A roda que gira e nos diz de nossas mortes e renascimentos.
E DESSE JEITO meio torto, da vida me dizer do quanto sou agraciada, fecho mais um ciclo e sigo. Enterro, solenemente, os meus mortos, e celebro alegremente meus amores vivos. Sou grata, sempre grata, por ter o merecimento da libertação.
Garanhuns, 21 de jul 2015.




ASSIM-JÁ DESPERTA

Ultimamente, durante as manhãs, percebo que bate à minha janela, declaradamente, um passarinho.  Eu julgava que antes fosse o vento. A janela anda meio frouxa. A essa batida do bico na madeira como se esculpisse formas som  igual aos que ouvia na infância, quando minha irmã Myrna entalhava suas artes tenho   atendido, entendido como um recado delicado da vida, enviado por um mensageiro especial.

Chegado o inverno, feitas as escolhas, decidido os caminhos, a cama tem sido o lugar mais quente da casa. Sabido disso, o passarinho vem me encorajar. “Levante-se!” “Desperte!” Eu tento não contar as horas, tarefa que me obrigará a verificar os dias. Tento. Mas é difícil. Então desço. Vou trabalhar. Subo. E, incontestavelmente, ao entrar em casa a sala é o ambiente de limpeza para descarregar as tensões. A radiola já expressa vida própria. A vizinhança, agora íntima de meus desabafos, senta-se à calçada. E me alimento de músicas. Assim, me esvazio desses pesos que só eu os entendo.

Vivo nessa leveza crônica de acordar para a vida despertada por pássaros. De na condição de ser humana lidar com os que dizem ser meus iguais, todos paradoxalmente em sentimentos. E tantos assuntos absurdos me passam. E por dentro de mim me concentro. Eu-extrínseca faço o teatro da vida que segue noutro ritmo, divergente de meu movimento. E vão me povoando canções, e lembro de atores já idos dessa escola em que nada tenho de educadora.  Só sei eu de sensações e sentimentos que estou aprendendo. Minhas certezas vêm de algo sutil. Nenhum experimento nisso. Mas o que isso importa, se tem mais valia os códigos, as coisas inventadas, o enorme envaidecimento? Inquietudes de gente menor, assim como eu, desimportante que só pensa em humanizar a vida despindo-a desse caráter humano artificial que se implementou, valem de quê? Pra quê? Qual o lucro gerado nisso? E todos se fartam de muitos conhecimentos para o esvaziamento humano. Estamos fabricando robôs em série...

Por tudo isso eu penso, de cara, sem química que me dope, sem publicidade que me corrompa, sem cabresto que me oriente, não existe remédio para o meu mal. Despertar é uma tarefa que mesmo que eu não queira, tem ser alado vindo me lembrar. “Desperte!”“Desperte!”. Como um blém! blém! de igreja. Sinal sagrado. Como badalada de relógio, aviso do tempo. “Desperte!” “Desperte!” Levante-se! Sacuda-se! Contagie! E lá vou eu pra lida diária de acender centelhas com meu calorzinho insignificante de ideias transgressoras, aviltantes, agressoras, rebeldes, delirantes. E retorno para casa  energizada de tudo que é revoltante. E transmuto. E transpasso a ordem do que não me aprisiona.

Garanhuns, 18 jul 2015.

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