quarta-feira, agosto 28, 2013

O MUNDO E O CÃO

Piaba. 1º dia em casa

Poucos dias atrás adotei um cãozinho, no centro de zoonoses da cidade em que resido, Garanhuns.  Eu, Júlia (para quem não conhece, minha filha de 7 anos de idade) e Mika, uma amiga, visitamos o centro para conhecer os cães ali disponíveis ( todos,  claro).  Não foi difícil escolhê-lo porque ele que me cativou. Júlia teve pouquíssima participação nessa tomada de decisão, tamanho entusiasmo de saber que poderia adotar qualquer um daqueles cães.

Batizei-o de Piaba. Minha avó materna nos dizia que dar nome de peixe a cachorro os tornava mais inteligentes. Ela criou um tubarão. Graciliano deu vida à Baleia. Eu sem Tubarão e Baleia, longe do mar, crio o Piaba.

Piaba veio cheio de traumas para nosso lar. Não se levantava da caminha nem olhava para nós enquanto nos comunicávamos com ele. O processo de conquista da confiança dele foi intenso no fim de semana passado, quando nos dedicamos integralmente a ele. Essa doação também me levou a fazer algumas reflexões a respeito de nossas práticas afetivas. Do por quê de nos entregarmos gratuitamente a certas pessoas em detrimento de outras, assim como de outros seres.

Tem gente que cuida de planta, prefere a qualquer criatura que reaja a estímulos com reações entusiastas. Muitas pessoas admiram pássaros engaiolados. Outras apenas pessoas... sim, engaioladas.  Eu tenho plantas que me acompanham há anos, para onde vou as levo. Quando morrem, sinto. Já criei gato, uma experiência única. Freud era o seu nome. Ao assumir o emprego tive de ausentar-me de casa muito tempo, então dei o bichano a uma amiga. Pouco tempo depois engravidei. Júlia cresceu e me pedia um cachorrinho, há algum tempo. A ideia  era  interessante numa casa com quintal. Agora temos.

Contudo, por mais curioso que pareça, Piaba está aqui por mim. Com ele tenho repensado isso de gostar, de me doar, de me entregar... repensado os sentimentos de confiança, fidelidade. E olha, não adotei um cão por nada disso. Não foi para ter dele proteção, carinho, companhia.  Na verdade ele veio para receber e não para nos dar nada. No entanto, dois dias após a sua chegada, estendendo roupas no varal, ele pulou alegremente e sorridente em minha direção, e lambeu meus pés... gratuitamente aquele cão me deu respostas sinceras de seu afeto por mim. Se eu já o amava, agora, nem sei o que sinto por ele.

Nossa casa tem sido alegre e festiva com a sua presença. Ele mordisca e lambe meus dedos dos pés enquanto assisto TV com minha filha, no sofá. Todas as noites faço o ritual de lava-pés em minha filha e em mim... por que negar a ele esse carinho, se é o que sabe dar?   E novamente penso em nossas atitudes humanas, limitadas e egoístas, desenhadas pelas convenções sociais, nem sempre pautadas no respeito à liberdade de expressão porque agridem preceitos, modelos...

Com Piaba, por exemplo, não me queixo de levantar cedo, colocar sua comida, ter cuidados que tenho igualmente com minha filha. E um colega de trabalho depois de ler este texto talvez me perguntará: “ E qual a diferença se fosse seu companheiro, marido?”. Ahhh, papo para uma longa conversa, para um novo texto...

O fato é que Piaba não reclama da minha comida, dos meus horários, do meu jeito, de minha dinâmica, do que sou, porque ele me olha na essência, como só os animais, amorosos e sensíveis são - e os filhos, até que  a sociedade consiga corrompê-los com preconceitos.

Ser mãe triplamente, de gente, planta e bicho é muito interessante. Na verdade, é desenvolver diferentes linguagens de cuidado com o meio ambiente, com o universo. Atrevo-me até a dizer que é um exercício para ser alguém mais gente, e cuidando do outro assim sou mais importante.

Quem dera que no mundo esse cuidado fosse estendido a todos e o amor fosse reconhecido como um gesto simples, menos impactante...

Assim começa nossa história de amor (minha e de Júlia com Piaba) nesse mundo tão carente de gente, tão cão de abandonado.
 
 
 

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