quarta-feira, fevereiro 16, 2011

CAFÉ, CAFÉ COM LEITE, CONFETES E SERPENTINAS


Hoje levantei da cama com gosto de café com leite e pão com ovo frito na boca. Proibi a pressa, repetida diariamente, de me tolher os desejos, e fui à cozinha fritar meu ovo e preparar o meu café.

Com o primeiro gole, o sorver do aroma do grão, o sabor da margarina derretida no ovo, voltei aos meus 7 anos de idade, lá para Pitimbu. Vi meu pai com a garrafa de café na mão e os copos americanos, arrumando a mesa improvisada de acampamento para o nosso café da manhã, reunido em família. Café puro para uns, café com leite para outros, café açucarado para as crianças. A confusão inicial de organizar aquilo. Ah! Como eu gostava disso tudo. A maresia perfumando o terraço da barraca e todos os dias que ali nos encontrávamos.

Na matinê de um bar-clube, pronto para receber os acampantes, os frevos, marchas e sambas antigos a embalar nossa alegria, a infância das crianças. Primos, irmãos e os mais velhos sorriam, brincavam. “Ô balancê, balancê/Quero dançar com você/ Entra na roda, morena pra ver/ Ô balancê, balancê” “Pra libertar meu coração/Eu quero muito mais/Que o som da marcha lenta/Eu quero um novo balancê/O bloco do prazer/Que a multidão comenta/Não quero oito nem oitenta/Eu quero o bloco do prazer/E quem não vai querer?/Mamãe mamãe eu quero sim/Quero ser mandarim/Cheirando gasolina/Na fina flor do meu jardim/Assim como o carmim/Da boca das meninas/Que a vida arrasa e contamina/O gás que embala o balance(...)”, “Ô abre alas que eu quero passar/Eu sou da lira não posso negar/Rosa de Ouro é quem vai ganhar”, “Agora é cantar/ Deixar o corpo balançar/Não quero ver ninguém de fora/Abre a roda,vem brincar!”

E ouço a voz de meu pai e recebo seu olhar atento. Lembro agora de uma amiga a me questionar: Lembra-se dele, ainda? E eu respondi no meu sotaque característico de pernambucana: oxi, claro que sim, e é tão nítida e tão sonora sua imagem e voz, como se estivesse aqui ao lado, dividindo ainda suas lições.

Era disciplinado, justo, amante do Direito, e presepeiro em tempos de carnaval. E revisito outros carnavais, e amigos, e outros blocos passam, e outras músicas me chegam, e o colorido, os confetes e serpentinas, tudo isso me preenche, me habita. “Quem tem saudade não está sozinho/Tem o carinho da recordação(...)”

Não, não estou triste. O café, também trazido pelas mãos de uma amiga, durante tardes de estudo, sessões de filmes, filosofia, literatura, me levou a revisitar pessoas que já se foram desta vida, jovens e lindas, e ter estado com elas neste momento da minha manhã me encheu de sensações positivas.

Não tarda, daqui a algumas semanas é novamente carnaval. Preparo a fantasia, a imaginação, o coração e o abraço. Ressuscito-me e aos meus mortos queridos. Levarei todos os que amo comigo para o bloco, para a rua, a avenida, e os que eu não puder levar me sentirão de onde eu estiver. Oxalá!

Cheiro!

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